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poesilas wrote on Jan 30
Artigo/Opinião:
Não Empreste Livros

“Nenhum de nós sairá da ilha”
Agatha Christie – O Caso
dos Dez Negrinhos

Conheço gente que trabalha de sol a sol, deixa de comer carne; que manéra nas cervejas por alguns dias úteis, só para comprar AQUELE livro que deseja ardentemente ler, do qual ouviu falar sábias palavras; ou que a banda legal da crítica especializada elogiou muito bem, quando não é sazonal lançamento midiático de praxe ou mero best-seller de tapuia. Esse ser humano valoriza realmente cultura, e, principalmente cultura literária e sabe bem o que é isso, o quanto vale isso, o quanto isso pode e faz cabeças e sentenças. E sabe saber. Um “fanático por livros de boa qualidade”, na maioria das vezes compra-o como deleite, e o tendo como todo seu com prazer e estima, claro, de sua rica propriedade e acervo, em seu lastro de primeiríssima grandeza, orgulhando-se sobremaneira dessa muito bem paga aquisição de peso, de quilate.

Em compensação...Conheço gentalha que quer parecer o que não é, faz panca de leitor topetudo, mas é mixuruca mesmo, feito jeca total repete à exaustão frases feitas e bonitas – quando não bregas de cultura de almanaque - que decora, surrupiando direitos autorais de outrem, nunca comprou com o suor de seu trabalho um bom livro sequer, só recebeu ocasionais piedosas (no mal sentido da palavra) doações(...) de lixo; vive só emprestando, acha que tem uma boa biblioteca mas, na verdade, tem um depósito de rejeitos. Ninguém dá livro relativamente bom pra gente assim.

Pior: tem gente que se ufana do carro zero, do relógio importado, da casa na praia, de diploma disso e daquilo, tem pose, tem panca, mas só eventualmente tem ocasional valor pela verdadeira leitura de boa qualidade (e pela cultura propriamente dita) e, ainda assim, só se circunstancialmente um desavisado en passant lhe emprestar um livro de peso. Falso leitor. Xarope. Mero ledor. Quer parecer o que não é. Inverte valores reais.

Conheço gente fina que tem mais livros do que móveis em casa. Tem conteúdo. Os livros são a instrumentalização de seu profundo saber de conteúdo, qualidade e profundidade. Clássicos. Paradoxalmente, conheço quem empresta e, esqueça! Não devolve nunca, pensa que a obra é pertencimento dele, passa para terceiros e o livro roda, o livro acaba num lugar qualquer, paradeiro desconhecido. Também conheço quem rouba livros, surrupia assim na cara dura, cara de pau, principalmente obras qualificadas, só para dizer que tem (nunca lê, e se for ler não entenderia), não tem base para tanto, não tem suporte de qualificação, e se lhe negam um eventual empréstimo concorrido de livro importante ou da moda, de ocasião livresca, esbraveja, agride, destrata. Mas gentinha assim, topetuda com status e tudo, nunca disponibilizou um por cento do que ganha mensalmente para investir generosamente em livraços de valor, sequer leu os mil melhores livros de todos os tempos, muito menos os cem melhores clássicos da história universal da humanidade, nem sequer sapeou os dez melhores livros da tradição histórico-cultural brasileira. Dá pena.

NÃO EMEPRESTE SEU LIVRO. Faça a pessoinha mais interesseira do que interessada e de gordo olho invejoso no seu, comprar ela mesma, ela também, um livro. Quem só empresta não vale o que come. Não vale o que diz. Conta prosa e olha lá. Quem pode, valora a arte, compra, quem não pode que se acuda com uma biblioteca pública, freqüente sebos popularescos, se socorra assim para o desfrute pretendido, não fique emprestando sem nunca comprar, sem nunca ter um de seu.

Você pode emprestar, é claro, falando sério, para aquele seu melhor amigo do peito, fiel, ético, legal, jóia rara, ou irmão querido que de vez em quando gasta uma boa nota comprando do bom e do melhor também, até porque, ele pode trocar com você, qualidade por qualidade, ou emprestar por conta do crédito que tem, se você em tempos de vacas magras estiver de caixa baixa. Mas quem só empresta não presta. Já pensou? Não se preste a isso. Cada um tem o que merece?

Conheço gente pomposa e metida a cult, que bobamente repete, que nem papagaio de pirata, estúpidas frases feitas, prontinhas mas bobinhas, vazias espiritualmente, cultural e filosoficamente falando, daí você vai ver e o vigarista tem na ponta da boca uma coleção de provérbios chinfrins tirados de rastaquaras livrecos na verdade surrupiados, emprestados e nunca devolvidos, sempre pedidos com jeitinho porque ele é bom de papo furado e ruim de estima, ganha de favor, de quem não entende nada de nada, e acaba assim, pobre coitado, orgulhoso daqueles rejeitos normalmente ultrapassados, vencidos, de falsa auto-ajuda, de filosofia dos tempos da onça, que chega até a ser vulgar de tão medíocre ou arcaica, ou de pseudo-espiritualidade, porque, afinal, o melhor do esoterismo é a ajuda-mútua, o melhor do espírito é a prática de um humanismo de resultados. Quem lê mais vale mais, claro, Vale enormemente mais quem lê poesia, e, vale ainda muito mais, no entanto, quem com o suor de seu rosto paga regiamente pelo que lê, valorizando assim a obra, o autor, o livro. Quem só lê livro emprestado, desvalora o autor, a obra, a idéia, o tema, a história pensada e sabida, assim como quem xerocopia. Esse é o que podemos classificar de leitorzinho chulé. Lê porque não sabe agir, enfrentar, conquistar, percorrer decantações, vencendo-as.

Só empreste livro para quem, por si mesmo já tem bastantes livros. Quem ama, compra. Quem compra sabe o valor que tem, adquire os clássicos, os importantes de fato e não se troca e nem se vende por uma idéia narrativa de livro. Não confunde as coisas. Não há verdades perfeitas e acabadas. Vidas são livros abertos. Não empreste livros para quem é louco e ao lê-los rasamente julga-se dono da verdade. Se é verdade não tem dono. Tal tipo só se escora numa cultura de almanaque, em filosofia de ocasião, porque tipinho assim só empresta por má formação, não investiu dignamente em seu trabalho árduo dia após dia, de sol a sol; seu suor sagrado, seu sangue empreendedor, na mais valia que é comprar um livro para assim tirar formação essencial e a posse de seu melhor tesouro. Quem sempre só empresta, não presta. Viver emprestando livros para quem deve e não paga, não tem nada a ver; não tem nada nunca porque foi falso fácil, não criou coragem limpa e digna para peitar situações e crescer vencendo-as, porque foi dissimulado, ou só conseguiu sobreviver às custas dos outros, não vai nutrir zelo íntimo real, e emprestar alguma coisa pra ele só serve para nutrir ego doentio de quem nunca por si mesmo se deu valor.

Filie-se a uma biblioteca, com carteirinha de foto e tudo. Cobre que ela melhore o acervo, a partir de políticas públicas nesse sentido. Como você tem uma conta no bar, no analista, no açougue, no bazar ou brechó; como você cotiza grana pro dízimo, pra roupa, pra viagem de férias, ora, cara pálida, disponibilize uma cota xis para poder comprar os livros que precisa ter, que quer. Salário é sal. Se você não mereceu um, vai ter que ficar pedindo favores mesmo, depender dos outros. E pedir humilha o pedidor que tem vergonha, torna-o escravo da própria inapetência. Emprestar sem nunca comprar; sem nunca dar retorno, é sinal de fuga, válvula de escape, de doença mental, desvio de personalidade. Qual é a sua?

Eu sou possessivamente dono dos meus livros. Alguns, até, furtaram e eu sempre, comprei de novo outra vez. Outros, falsos amigos íntimos (falsos amigos são ladrões volúveis de nosso preciosismo tempo de existir) emprestaram e nem tiveram o trabalho ético da devolução. Maldizendo, rogando praga tive que comprar outro, recomposição de acervo básico, sabe como é, essencial. A magnífica posse de um livro comprado por você mesmo não tem preço que estime. É uma coisa meio que divinizada. O livro emprestado não dignifica o seu portador em trânsito, muito menos a leitura, sequer permite releitura, anotações, cismas, alumbramentos, ponderações pertinentes, conferências de técnicas, tópicos frasais, estilos, principio, meio e fim, essas coisas, não necessariamente nesta ordem. Livro ótimo, adorável, aleluia, é para ser rasurado, relido, bebido-comido, gasto enormemente de tantas prazerosas releituras de manejos e marcas, como muito bem se gosta, o que se adora, deleita, desfruta, tipo como usar bem e realmente com bom proveito. Livro assim é um santo remédio pra vadiação, hobby, viagem, devaneio, o si for de si, dentro do livro, alma aberta, vela solta, gavetas neurais se desenferrujando, espírito crusoé em uma ilha à mão, capa e espada, brochura, orelha e final feliz. Sacou o alumbramento que é estar com um mundo nas mãos, um bom livro? Terra à vista. Vida à vista. Obra nua. Não se empresta o que presta.

NÃO EMPRESTE LIVROS.

Diga ao curioso ou invejoso pedidor bobo: -Quer ler? Vá comprar!Compre o seu. Querer saber de ótimos livros e só emprestar sempre, é posse pífia, é coisa de janota e boçal vazio de propósito. Escutou barbaridades sobre a obra russa? Poupe para comprá-la, lê-la, tê-la. Pratique essa idéia. A posse de adquirir uma obra de vulto, de um trabalho cultural gigante, vale o momento rico, precioso. Emprestar é incentivar gratuidades ignorantes de quem quer aparecer sem ser. Ler é ver muito bem isso. Emprestar é estimular zé-mané a habituar-se a ser servido sem ter feito por merecer. Não caia nessa.

Só empreste seus ótimos livros, na base de troca. Casco por casco. Pau a pau. Só empreste seus ótimos livros para quem também só tem ótimos livros, não cacarecos. Assim realmente vale a pena. Quem ama ler, estudar, aprender sempre, saber mesmo, paga o justo preço da sapiência evolutiva, sabe que livro não é curso e nem faculdade, mas sustentáculo de. Sabe o justo valor de quem pesquisou, passou noites compondo personagens e tragédias e rapsódias e romances; estudou, sentiu, pensou, viu a cena antes, fílmica, cresceu, passou a vida lutando arduamente por uma idéia, um projeto, vencendo os percalços, dentro do caminho de uma edificação-livro, com renúncias, fugas, reajustamentos. Só por Deus.

Ler de graça é não se dar valor. Tudo tem seu preço. Pague a pena. Pague pra ver. Pague pra ler. Querem emprestar? Ora, retruque, se enxergue, vá comprar.

Aliás, quando é que você vai cobrar o livro que nunca devolveram, e, vai ver, nunca leram? Tá esperando o quê? Cem Anos de Solidão?
-0-

Silas Corrêa Leite – Estância Boêmia de Itararé-SP
E-mail: poesilas@terra.com.br
Site: www.itarare.com.br/silas.htm
E-book O RINOCERONTE DE CLARICE no site
www.itarare.com.br
Blogue premiado do UOL
www.portas-lapsos.zip.net
Site de Itararé das Artes
www.artistasdeitarare.blogspot.com/






poesilas wrote on Aug 22, '10
Crônica:

A Força Que Nos Alerta


Para o Professor Alexandre Silva, meu amigo-irmão

“A verdade é aquilo
que diz a nossa voz
interior...”

(Mahatma Gandhi)



De onde vem...o que é exatamente... aquela bendita “força” que nos alerta? De que “desmundo” é esse tal lado sentidor tão tácito nosso, de captar, decodificar e, no sensorial nosso, traduzir para nós mesmos, dentro do nosso compreensível imediato um legado importante, quando estamos em risco emergencial, e precisamos mesmo compreender tudo e bem depressa, sim, para nos salvarmos de nós?

A força que nos alerta.

Você está para viajar, tudo prontinho, numa boa, um lugar novo, praia, longe a viagem, conhecida estrada, férias de verão com sol, eis que de repente, um telefonema; uma coisa que cai de algum lugar para lugar nenhum (e sem aparente motivo algum) e, sem querer, sabe-se lá por qual ou algum motivo ulterior, superior que seja, você não sai, não vai; o carro refuga o improvável, o elevador empaca sem motivo, a ração do gato que falta, um telefonema por engano, quando resolve bobamente então pensar melhor, vai ver um filme que já viu, fica sozinha reclamando sem entender, sem saber porque, e então lá bem a bomba depois : todos que foram perderam a vida, houve um desastre, a pista, o sinal, a chuva, e você foi salva nem sabe direito porque.

Quem livrou você? A força além do incompreensível salvou você.

Você está muito a fim de alguém. Aquelas coisas. Um baile de fantasias, um espaço de entretenimento, você saca a pessoa chique, pomposa – pode ser ela a ideal, a para sempre, o amor de sua vida de lutas e sonhos, de erranças e eternos recomeços – então você vê que há outros interessados de passagem, você ali, imaginando coisas, carente, querendo se soltar, chegar, dar telefone, nome, endereço, muito prazer, essas coisas próprias do primeiro encontro. Súbito, uma brecada brusca num não-lugar (que só você ouve e sente), uma estrela cadente as onze da manhã, um psicológico disparo no coração, e você vira para outro lado se distrai, um quadro abstrato, uma música de um tempo, um lugar, e você sai fora do foco, sabe que alguém pipocou por ali, o lance foi com outra pessoa, meses depois você fica sabendo a dor, o trauma, a traição, a contaminação, a morte, e você escapou por pouco – nem sabe bem direito como e porque – você se safou, você não foi a vitima da vez, não foi predada, só por Deus.

Essas coisas acontecem mais do que você imagina.

Você vai jantar fora, baita apetite, noite alta, céu risonho, você com a corda toda, alto astral, crédito espiritual, alta estima, entra num lugar badalado, pronto pra balada notívaga. Fica ali numa boa, pede um drinque, sacando a hora de pedir o cardápio, o manjar de leite de coco com ameixa. Súbito, dá-se alguma coisa no seu íntimo, no ser de si, você paga e nem consome direito o que foi pago, levanta-se e sai depressinha pela rua assoviando uma balada do Erasmo. Em segundos você então, fora da área de risco, escuta gritaria, um estrondo, o lugar explode, pessoas desesperadas, você escapou por pouco.

Há um Deus!

A força que nos alerta. Que força é essa, quem livra você de você passar por necessidades, de viver momentos traumáticos, de sofrer problemas graves? São tantos os percalços que compõem a ária da vida. Esse é um milagre indizível. Que força provê alguém, quem manda você voltar pra casa, quem dirige sua vida, quem manda você pegar ônibus num outro ponto, quem às vezes livra você de você mesma.

Mistério? Ou todos os dias somos repaginados em nosso endereço epidérmico?

A força que nos alerta, dá uma dica sem dizer, dá um toque sem falar, mas você saca rapidinho, lê o indizível, olha o que não existe, capta, percebe, intuição apurada, faro fino. Que mundo é o mundo? Quem abençoa você, protege você, ama você e tem um plano pra você? Você tem um problema, tropeça na resposta, você fica desempregado, lê num pedaço de jornal a dica do próximo trampo, você tem um difícil trabalho de escola, acha um texto na Internet ou um desconhecido por engano lhe envia sem querer. Sem querer? Quem mandou?

Essas coisas acontecem mais do que você pode imaginar.

Nada é por acaso? Nada acontece de graça. Já tivemos tudo isso, outras vezes, não podemos refugar nosso destino? De um modo ou de outro viveremos sempre o que temos que viver? Já estivemos aqui um dia e não fizemos a lição de casa, o óbvio ululante? Estamos só reprisando capítulos rotineiros de um trauma para aprendermos melhor um novo rumo, uma nova chance, uma vitória que não queremos e nem sabemos que não fizemos por merecer? O que podemos evitar? Tudo é possível. Cuide-se bem.

Vigie além de orar. E saiba lidar consigo mesmo, ser feliz com o que você é, traduzir-se para compreender melhor o seu interior... Aceite-se. Permita-se assim.Corra riscos se preciso for, ventile essa alma-avelã.

Mas, afinal, isso acontece e, acredite se quiser, alguém lá em cima gosta de nós. Mesmo que não saibamos, ou às vezes não compreendamos inteiros e redondos, estamos de alguma forma direita ou indireta, sujeitos a esta força. Deus? Godot? God? O anjo-da-guarda?

Leia o poema:

“Ouvir não dói/Ouvir não é ceder/Ouça mais(...)/Ouça, pense, compreenda/Reflita/Permita-se na relação profunda do diálogo(...)/Ouvir é pra essas coisas:/Permitir, trocar, evoluir/(Ouvir não é só isso/Tem essência na filosofia do verbo ouvir(...)/Ouça mais/E seja mais/nesse mudar(...)/Talvez só falando você não se encontre/E nem saia do mesmo lugar(...)”

Tudo é possível. Fique esperto, fique alerta, leia os sinais, capte as sugestões implícitas, seja um radar, esteja ligado. O imponderável é bem provável. A ciência não explica a ciência. Se dinossauros não ficaram pra semente, as baratas sobreviverão até a uma guerra nuclear.

Conecte-se. O grande milagre é compreender a informação, sermos receptivos às mensagens!.

Faça por merecer.

A Força esteve com você.



-0-

Silas Corrêa Leite – Poeta, Educador, Sonhador de um Humanismo de Resultados –E-mail:
poesilas@terra.com.br
Site pessoal:
www.itarare.com.br/silas.htm
E-book ELE ESTÁ NO MEIO DE NÓS no site
www.itarare.com.br




















poesilas wrote on Jul 25, '10
Pequena Resenha Crítica

Romance “UM”, de Geraldo Lima – O Discurso Amoroso da Dialética Consciencial




“Estou farto de muita coisa (...).
Eu quero a destruição de tudo o que é frágil”

Roberto Piva


O que pode o ser humano, senão, entre seres humanos, AMAR?. Parafraseando o poeta, é isso o que se dá, naquilo que Cazuza chama de sua metralhadora cheia de lágrimas, em Um, o romance de Geraldo Lima, LGE Editora, uma dialética do discurso amoroso em que permeia a consciência, o paradoxo, o ser humano (no caso, sensível), entre seres humanos, AMANDO. E com tudo isso, claro, a narrativa que vai e volta, choca e instiga, se esconde, aparenta, cita, permeia, desce e sobe, sempre sob o pântano da condição humana nas relações humanas. Será o impossível? Geraldo Lima debuta e enlaça narrativas como quadros cênicos dessa relação amarga-doce, bonita-feia, alegre-triste, sensual-bizarra, mas, antes de tudo, como as cartas de amores são ridículos – olha o Fernando Pessoa! – romances de amor nesses tempos pós-modernos também. Pior, se entre o sagrado e o profano, a carne e o sangue, o santo e o convexo, vivenciam diálogos impertinentes, bem costurados com arrojo de criar sem cair na pieguice romântica do quase ou tanto... pode se dizer que o amor acaba mas a saga continua. Ex-amores são para sempre?

Pois é: o amor tem sim, loucura que a própria lucidez desconhece.

Como se descascasse uma cebola de relação que ameaça, explicita, sai de cena, pensa-se, o autor vai retaliando a relação, fatiando sofrências, acontecências, dando tempo ao verbo e o verbo se faz carne, como se faz tensão, solilóquio, espírito e carranca. Olha a consciência como leitmotiv. Ana é o fio de Ariadne ou Ariadne é uma consciência sagrada pesando, fio condutor, para um interlocutor (interlocutora – a consciência?) onde sempre depositamos o pão e o vinho, do que se vem da carne nas relações proibidas/permitidas, só sonhadas, quem o sabe? Crime e castigo? Ah o crime de amor que faculta o existir... A consciência é a serpente que envenena intenções (ou possíveis intenções em treva branca), ou clarificando pensares, ilações/alusões, faz um inventário de partilhas íntimas, abre véus, aponta o que existe e até o que não existe?

Geraldo Lima demonstra isso aqui e ali, teatrizando ora o possível, o entendido como havido, o medo de algo-alguma coisa, resvalando ora na poesia, ora na prosa, ora meio que lispectoriano sem perder a mão (e a ternura) jamais. Gostoso lê-lo.

A Ana que foi (foi?) e já não é. A Ariadne que poderia ter sido e não foi. O entremeio, o intertexto, as citações, o seminário (que aqui vem de sêmen?...); o possível pecado de, o padre e os estudos, o corpo, a devassidão; nunca completam de uma perdição cobra-cega no paraíso do contar. Que consciência é o divã? Divã de idéias; divagar delas, ah o romance como fio de meada, fio de Ariadne, olhar enviesado, tirar de véus, entrecortar, contando, entrecontar, cortando, pinceladas mágicas de ternura, sensibilidade, como se tudo entre quatro paredes, o voyouver, e vai por aí o bolero-(tango-)mixórdia da contação. O castiço a rapariga, o mortiço dos ambientes propositalmente turvos, e o sexismo, o amor e o pudor. UM, o Romance de Geraldo Lima poderia também se chamar Inferno, fosse invocada a consciência como narradora. Tudo bem, é o espírito que ama o espírito, antes do corpo amar o corpo... isso, nas fáceis vidas difíceis, mas, entre uma sedução e um seminarista, tudo ralhado, há bulhas e cismas. Periga ver. Sentir, chocar com o olhar do que conta o vai-da-valsa, com um medo-coisa, uma solidão-embuste, uma aparência que, sim, engana. De propósito?

Depois que conhecemos o amor, em que lugar (de nós) deixamos as asas? Extremos e lumes. Sangria desatada a... de novo, consciência... repigando sentimentos e ressentimentos. Tudo a ler.

Que cenário é a mente, a casa, a história, lugares nenhuns, todos os lugares? Paulo tece os momentos que passou com Ana, a quase fêmea-fatale (não são todas?), a mulher-aranha com quem morou por algum tempo. Fala da amiga Ariadne, tece acontecimentos e pessoas como referências de vida de passagem. E há o padre Artur, que lhe foi uma espécie de mentor. Com o autor caímos na redoma de vidas, além, claro, de uma sua experiência transformadora que nos leva a reflexões ora incabidas, ora insabidas, ora sagraciais. Sim, meus irmãos, cada um sabe a dor e a delicia de ser o que é, e o que não é. Cada um sabe de que luz faz cruz, de que devaneio faz sentimento, de que santeria interior faz nau insensata, de que atitudes impróprias congela momentos, visões, prismas. Escrever é colocar dúvida em nós mesmos, a partir de olhares novos sobre frinchas revisitadas.

UM é isso: um romance sempre no começo de uma relação que é posterior e anterior ao seu tempo estagnado, mas que viça pela palavra, se alonga, debulha, questiona, avalia e até trinca intenções. Há entrelinhas no ler...

Que milagre é amar e escapar ileso? Escrever é lembrar, lembrar é escrever/ascender (e acender velas na solidão de uma alma em conflito). Depois que um corpo conhece outro corpo, fugir é mergulhar nele, mesmo que seja num palavrear confeitos, contrastes e ramificações do verbo sentir. E pensar é sentir com a alma. A carne é fraca, meus irmãos, o Romance UM foge do cepo da consciência, para cair no labirinto das confrontações. Um romance e tanto. E atual, moderno, nesses tempos em que uma igreja decrépita mostra as vísceras, em que a nódoa da historia nela depositada é remorso, e em que os que passam pelo genuflexório têm que rezar defeitos, lamúrias e resignações de fugas ainda não depuradas. Há um Deus? Periga ver.

A correnteza da narrativa é o contra-fluxo do medo de amar até a página tal, o lado b do que se passou. Há coisas no ar. UM é apenas o começo do zero ao infinito. Tudo pode ser, como também não. Tudo pode ter acontecido, como pode ser um delírio bem orquestrado entre o que houve e o que se coube na relação até o limite do provável.

A mão que oferece a maçã, oferece o delírio do corpo, da carne, do afeto trocado. Amou tem que rezar? A cartilha do amor é o corpo do êxtase levado ao destempero. Amar e sofrer. A corrupção do corpo. A delação da mente. Turvamos o historial para sentirmos a transparência de nós mesmos? Mia Couto dizia que a melhor maneira de mentir é ficar calado. E narrar o questionável? Si, sem o prazer não podemos parecer humanos. E o humano em nós desmonta o falso-sagrado em nós. Escrevemos para medir o destino, ou o amor é um erro?

Geraldo Lima é professor de literatura, e conhece do oficio de romancear. Tem outras obras, alguns prêmios, retrata as relações humanas levadas ao extremo, entre o zelo, entre a mancha; do achado entre o perdido, das neuras e dos perigos letrais das relações amorosas, feito um discurso da posse de, da libertação de, dos atropelos de.

Amar se aprende amando, diria o poeta. Há muita poesia no Romance UM de Geraldo Lima. Ler a obra é desnudá-lo. Ficamos cegos de tanto sentir, ou ler é tirar as tintas e panos do que ele conta, para sentirmos na pele que o livro vai além da experiência mística que inventa de contar?

Que hamster é o ser humano para o suplicio do conviver entre desiguais? Primatas querendo ser divinizados experimentam os horrores das contundências.

O Tibete talvez seja descobrir o humano em nós, depois que passamos tanto tempo no piloto automático da vida infame. E aí entra o amor na sua mais pura devoção, mesmo que paralelo ao medo do fotógrafo que retrata em nós a entrega despudorada, o inominável da submissão à carne, a tarja preta e o código de barras feito sermos todos nós ainda e assim, por isso mesmo o Número UM, introspectivo ou não, daquilo que sabemos de nós, entre o defensor e o algoz, a consciência e a circunstancia de.

O escritor é o que, com uma lanterna, procura o número que somos, que parecemos, que multiplicamos em silêncios, palavras, moinhos de ventos, filtrações e sagradas escrituras. Sagradas?

-0-

Silas Correa Leite – Poeta, Ficcionista, Resenhista
Autor de CAMPO DE TRIGO COM CORVOS, Contos, Editora Design
E-mail: poesilas@terra.com.br
Blogue: www.portas-lapsos.zip.net


Escritor Geraldo Lima








poesilas wrote on May 30, '10
A D U B O S
(Miseris Nobilis)

O homem será, nos esgotos subterrâneos podres
do que restar da Terra destruída, uma espécie
mutante de bisonho animal selvagem, querendo
desesperadamente a pilhagem da radiação para
manter acesa o seu instinto ancestral de sobrevivência


A terra depois do caos será tomada pelos mendigos
A terra fervendo será loteada por milhões de mendigos
Os chamados emergentes informais das ruas
Os excluídos sociais vampirizados pelo neoliberalismo-câncer
A população em situação da rua finalmente
Sitiará condomínios, quartéis, palácios, fazendas improdutivas
E o preço do pedágio será o sacrifício dos incautos
Que serão a lenha e o alimento da turba insana
Para serem o fogo e o silo no mundo podre e frio
Enquanto cidades-naves lançadas a toque de caixa ao espaço
Levarão núcleos de ricos e poderosos para aldeamentos siderais
Como sementes com nódoas da espécie humana
E o cosmos todo então será poluído e predado
Pela decrépita e amoral escória da raça humana
Que quererá sobreviver muito além do mal que fizeram
A si mesmos, ao próximo, à sociedade e à via láctea
Como a barbárie da civilização em um historial que é remorso
Quando milhões de mendigos assumirão
O poder de mando e controle da terra entrevada
Até todos serem finalmente reduzidos a pó
E serem de novo e para sempre os adubos
Talvez de um novo céu
Talvez de uma nova guelra
Como não estava escrito desde a última Atlântida

-0-

Silas Correa Leite
E-mail: poesilas@terra.com.br
www.portas-lapsos.zip.net


poesilas wrote on May 22, '10
Pequena Resenha Crítica





Livro ‘DEUS DE CAIM” - Estágios Escuros de Vivências Romanceadas com Estilo e Furor
Ricardo Guilherme Dicke, Prêmio Walmap, Magnífica Literatura Arrojada em seu Esplendor Literário


As batalhas nunca se ganham. Nem
sequer são travadas. O campo de
batalha só revela ao homem a sua
própria loucura e desespero, e a vitória
não é mais do que uma ilusão de
filósofos e loucos.

Wiliam Faulkner, O Som e a Fúria



O cavernoso romance (novel?...) “DEUS DE CAIM” do surpreendentemente estupendo escritor Ricardo Guilherme Dicke, agora muito apropriadamente relançado em alto nível pela LetraSelvagem, na coleção Gente Pobre, sob a organização do escritor-editor Nicodemos Sena, bem faukneriano e contemporâneo ainda, destila verbos, venenos, e inventaria brumas da relação ser/sociedade, vida/morte, amor/dor, fantasia/frustração, carne/espírito, dilemas/sentido e percepção, moendas (interiores)/engenhos (de almas atribuladas), tormentas pertinentes/insanidades comportamentais arrazoadas, Deus e o diabo no húmus entre Pasmoso e a profunda cauda narrativa que flui com densa liquidez expressionista/existencialista, e os cárceres das tentativas. A prosa do espaço, a dialética do exterior e do interior “as geografias solenes dos limites humanos”(Paul Éluard) e a porção carbono-C rusoé de cada ser. E Nelly Novaes Coelho (crítica literária, USP) já no início do livro ricamente editado já muito bem levanta panos e tintas:
“O homem interrogante; aquele que sonda o vazio existencial (...); em Dicke predomina a sondagem dos escuros do homem (...); Deus de Caim escava fundo um dos interditos que alicerça a civilização cristã ocidental (...); tempo de caos; romance labiríntico (...)”.
Toda arte de alto nível é cheia de pontos de interrogações como se propositalmente desinterligados. A arte de escrever nos leva a afirmação da vida em nós. Lágrimas não ficam para sementes, senão na arte? É melhor ser triste do que arrogante. Quatrocentas páginas de puro deleite que, explorando o fluxo narrativo (em júbilo?) do autor, vai de casa a casa, de ambientes a embustes, de fachadas a desfrutes, do historial ao fabuloso, entre o espanhol ao francês, nacos de poesia propositalmente semeadas, levantando lebres, apontando sítios letrais e escavando horrores quase que impossíveis de serem silenciados. Escrever é teatro de ocupação?
Artista plástico e filósofo, de pai alemão, Ricardo Guilherme Dicke pintou sua literatura de tintas brilhantes, novíssimas para a época em que foi inventada, um épico com cargas humanas, demasiado humana, como diz, fragmento de ensaio a respeito do livro (Ronaldo Cagiano):
“Nos 21 capítulos da obra a história da família Amarante vai se desdobrando numa colcha de retalhos de situações conflituosas e metaforizam a própria historia do Brasil (...)” (In, Carlos Herculano Lopes, Caderno Pensar, Estado de Minas, 06/02/10).
Aliás, Hilda Hist o considerava “um gigante”. Caim, Abel, Lázaro; personagens desbiblificados entre sombreados com querelas, acontecências, traições, taras; a vida nua e crua revelando sinais de pânicos e disfarçando conflitos, neuras. A par disso, bem pintados, filosofados, livros bons acabam joias preciosas. O medo nos delimita? Existe mais insanidade do que sensatez na vida, nas cargas dos ombros dos homens, no mundo. Somos todos espécies transfiguradas de paisagens com passagens de agonias, sonhadores ao extremo, não moscas-de-frutas. O Deus de Caim soma tantos pontos de interrogações até sobre palavras não ditas; dadas a entender.
“Romance capaz de abalar a nossa ficção” - (Guimarães Rosa). O âmago das crueldades destrinchadas em núcleos cênicos e traços existenciais carregados de ferramentas de crueldade e características psicológicas. Os arquétipos da fantasia e de uma loucura surda, enviesada, tudo em DEUS DE CAIM, a partir do mote de um irmão atentando contra o outro. A realidade é mais embaixo.
A consciência, a inconsciência, o que afinal resta dos refinamentos de uma ótima ótica para ver/sentir/; escrever com domínio da pena. Dicke naturalmente arrasa quarteirões, expõe as vísceras de momentos retratados, mas, ainda assim, com a ótica apurada de um pintor, desqualifica e expressa o horror (de viver?); teatro de ocupação reinando o tempo todo, num vareio de linguagem. Você só acredita porque está lendo. Como é que pode? No mundo da fantasia os monstros engordam parágrafos; na verdade, sangue/suor da dura e inominável vida real. Real?
Contundente, impoluto, altamente criativo, perspicaz, denso, e ao mesmo tempo de uma fineza extraordinária. É difícil ler Dicke e ficar indiferente. Não há neutralidade na sua leção. A atônita realidade captada em parágrafos que vão embora... Realidades sentenciadas com estilo e alto pendor estético, num talento literário surpreendente, agora reconhecido. Quem sairá do labirinto do livro sem se impressionar com as virtudes?
A história fala de nós, segundo Horácio, em sua sabedoria latina. Às vezes temos demônios e anjos à flor da pele. Nas dissonâncias há mais pureza do que no estojo linear das ideias. A arte de buscar o incompreensível nos leva à afirmação da vida. É o paradoxo de sobreviver além da sentição, e campear o lado pensador do humanus. A meditação não é escrachante quando aponta o humano vagando em suas erranças existenciais e sublógicas. Pode isso?
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“(...) Lembremos que toda pessoa tem o direito à vida, não é? Mas de onde lhe advém esse direito? Da Bíblia. E tirá-la, é claro, equivale a tirar um direito fundamental que constitui, desde o tempo de Moisés, violação à lei (...). O problema é este – chegar-se a um plano utópico em que não haja necessidade de leis e necessariamente todos os preconceitos se tornarão cinza inútil, relegada aos museus da morte e das coisas extintas. Imagine o que é não existir nem poeira desses preconceitos de agora que tanto nos martirizam, imagine uma cidade futura e ideal, em que todas as aspirações e inibições que jazem em nós sufocados, reprimidos e inexprimidos, aliadas à técnica elevada à perfeição, o que não seria! Por enquanto só algo mui longínquo disto se delineia em algumas obras de artes. Aliás, toda obra de arte é utópica” (Pg 135).
Você lê se palpitando no entressombreado do livro Deus de Caim e as cinzas aqui e ali soturnas das horas, relações e desmontes de significâncias, e reserva para a sua surpresa seduzida, um lugar para uma nova releitura ainda mais significante a seguir, e quiçá compreenda melhor, inteiro, se isso for possível, como a obra que vale o peso, a fama, a própria paixão de ler e de escrever. Obra única, feito um Cem Anos de Solidão, O Perfume, Baudolino, Invenção de Onira, A Espera do Nunca Mais, Vidas Secas, Grandes Sertões: Veredas. A narração é a redenção?
“Lidando com uma simbologia a que ele dá um sopro vital, fora do comum, Dicke não deixa coisa alguma de fora (...). O homem de fora está cercado de outra mundologia, as realidades violentas e subversivas da narração de Dicke envolvem com rapidez. Sexo e morte são evidentes (...). (Antonio Olinto, da Academia Brasileira de Letras). O ser humano precisa sentir sua exata sensação de estar e ser no mundo. Dicke tira pertencimentos das trompas da cólera, do desamor, da vida fugaz em sua saciadade de aproximação com estados calamitosos. Nada é impossível para ele. Desde Caim e Abel, a história nos fez acorrentados a culpas e sentimentos de medo e opressão.
A irrazão humana. A emoção humana tão desnaturada. Surpreende-nos Dicke em cada parágrafo, mesmo quando a narração ou enfoque vara páginas de limbos. A invisível esquizofrenia costumizada da apática sociedade decadente e falsificada para consumo. O biscoito da vida não é da sorte, não é de vida plena. Lágrimas não são guloseimas. Sentir dói. Em que lugar ficamos livres de tantos nós, senão nas asas da literatura? Bruce Hood dizia: “Nascemos com o cérebro desenhado para encontrar sentido no mundo. Esse desenho às vezes nos leva a acreditar em coisas que vão além de qualquer explicação natural.”
Uma obra clássica como Deus de Caim não se explica, mas se justifica pela excelência do autor. Em esmerada edição agora pela LetraSelvagem, Ricardo Guilherme Dicke é resgatado no auge do que a sua historicidade criativa congrega e vem-nos assim reeditado em sua maior obra-prima. Os porões da alma clarificados. Os subterrâneos da vida distinguidos com sua pena distinta, singular. Os sótãos de cabeças e sentenças nominados. É incrível a “lógica” funcional do escritor extremamente crítico, irônico, criativo e, claro, agora mais do que nunca, cult.
Literatura pura, de primeiríssima qualidade. Não há babel, bezerro de ouro ou cepo de Abrahão que esconda o sortilégio e o trágico fruto de Caim que vem enlutando a história da humanidade desde os primórdios. Escrever é pagar um preço? Escrever não é apenas cutucar onça com vara curta, é soltar todos os bichos. E Dicke faz isso muitíssimo bem, assustadoramente muito bem, liberta os seus (os nossos?), abre as comportas de seus próprios diques criativos interiores. Ah os escuros recônditos das almas embrutecidas com a fúria de ter que comparar, sobreviver, parecer que é o que não é.
E o Deus de Caim - que paira sobre todos nós – acode para uma leitura a altura, exige atenção pontuada, ao mesmo tempo olhar de remanso, para deguste e assim se poder sacar o esconderijo das ideias que ventila, ramifica, aponta e crava com o crivo de uma criação única. E quem sai ganhando é o leitor que se envolve dele, surpreso com a qualidade que custa assentar. Não é fácil. A vergonha, o incesto, a mentira, a dissimulação, o que pode parecer bizarro ou sexista. Quer mais humano do que tudo isso?
O estado decrépito do ser enclausurado em suas mesmices, masmorras e memórias cênicas, filosofando sobre conjecturas ou o que poderia ser e não foi, muito além das fronteiras das almas e seus estágios vivenciais estarrecedores. Ou seja, a humanagente no seu viveiro de contrastes. Vejamos a pintura literária:
“(Considerações, entretexto) O vermelho é a paixão e a força telúrica do Sol Matrogrossense, o azul são as paixões da noite e o negro a melancolia do sangue remotamente flamengo. O amarelo é a ânsia, o ouro, o desejo e as outras coisas nunca alcançadas. As formas que lembram labirintos e meandros ora são vegetações, ora caminhos, ora nervos em expansão, ora o ideal de um laboratório em que busco as equações de um mistério, de um nepentes ou de um descobrimento perfeito. Quero que quem os veja sinta uma contração pulsar e repulsar. E ao mesmo tempo, indague o que é o mundo – com múltiplos e infinitos signos estranhos – o que é o mundo, estas linhas, estas cores, esta massa, este movimento, este ser. Rilke disse que uma obra de arte é de uma solidão infinita. Quero pois que quanto mais solitário melhor. Cada qual encontre um pouco de seu eco que se perd e. É a natureza que recrio – e se fosse Deus – assim a recriaria – e é a relembrança dos países que não fui, no tempo das harmonias. É minha alma e a sua capacidade de entender alguma coisa que em mim não se perde para sempre, como as outras coisas que se perdem para jamais. É a poesia que não fui. As cores que eu amo e minha intenção de buscar entender o efêmero (...)”. Pg 251.
A extravagante literatura caudalosa (e por isso mesmo ocasionada de parágrafos em narrativas angustiantes) de Dicke; uma pintura extravagante de situações sociais em ermos e fugas, estados espúrios, de decomposições da efêmera vida social e sócio-familiar, quase árido, ou, como diz João Ximenes Braga (In, Dicke: o vôo da eternidade): “Dicke realiza uma estranha alquimia de política com metafísica na temática, e de realismo social como barroco no estilo (...) E ainda há intervenções de personagens místicos que o aproximam do realismo mágico (...)”. Pois Deus de Caim é uma soma disso tudo, e surpreende nos entremeios, na narrativa, nos belíssimos enfoques que o autor destaca e desenvolve com a paleta da escrita que mistura tintas de situações e aparências entre cores de convergências sociais apontando embustes; tirando etiquetas do armário, uma espécie as sim de romance-ensaio se reportando a conflitos, traumas e sequelas da natureza humana em decadência.
Um dos maiores romances escritos no Brasil, e mesmo tendo sido inicialmente lançado e premiado há cerca de quarenta anos atrás (Prêmio Walmap 1967), permanece muito atual, como toda obra de arte que se supera superando o tempo real, indo além de sua época como consagração de vanguarda e reconhecimento de talento e estilo próprio. Ricardo Guilherme Dicke, assim, escreveu um épico num estilo raro, único, onde concilia fluência e domínio absoluto da linguagem e da criação em seu esplendor, a verdadeira arte romancesca. Bravo!
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Silas Correa Leite
E-mail: poesilas@terra.com.br
www.portas-lapsos.zip.net

poesilas wrote on Dec 2, '09
Crítica


“O Homem Que Virou Cerveja”, Livro Premiado de Crônicas de Silas Corrêa Leite



Depois de finalista do Prêmio Telecom de Portugal, com seu livro de contos premiados ‘CAMPO DE TRIGO COM CORVOS´, Editora Design, Santa Catarina a venda na www.livrariacultura.com.br, Silas Correa Leite, o tachado de “O Neomaldito da Web” (pelo site Capitu), com bela entrevista polêmica num dos últimos Programas “Provocações” da TV Cultura (SP) do Antonio Abujamra (o vídeo está fazendo sucesso no YouTube, está lançando agora o livro de “crônicas hilárias de um poeta boêmio”, chamado ‘O HOMEM QUE VIROU CERVEJA´, Giz Editorial, SP, Prêmio Valdeck Almeida de Jesus, Salvador, Bahia.

A obra traz a famosa crônica de humor que nomina o novo livro, entre causos (de Itararé, é claro!), croniquetas diversas (sobre Mania de Banho, Fanático Por Bar, Baristas), entre um e outro tributo à boêmia; acontecências engraçadas de Santa Itararé das Letras (como ele mesmo diz) e de Sampa, onde o autor exilado de sua terra-mãe reside (no Butantã). Contações do arco da velha, e ainda o belíssimo texto “A Voz da Filha Que Não Houve” (foi vertida para o espanhol por um site aí, e ficou ainda mais belamente triste), e mesmo a tal da Declaração Universal dos Direitos dos Boêmios que é um destaque nas infovias da web, tão criativo texto quanto o próprio Estatuto de Poeta que corre a rede da net vertida para o espanhol e inglês, e que constou no livro Porta-Lapsos, Poemas, Editora All-Print, SP.

Da “Poética da Tristeza”, como na polêmica entrevista ao Provocações, em que o autor soberano driblou o Mefisto do Abujamra, passando pelo e-book de sucesso O RINOCERONTE DE CLARICE, primeiro livro interativo da rede mundial de computadores, tese de doutorado na UFAL, novamente Silas Correa Leite surpreende pela peculiaridade, estilo, domínio da escrita, fluência, desta feita paradoxalmente em alto astral, onde, irônico, traz um sortido de histórias, ainda com crônicas apimentadas de sensualidade em relações humanas extremamente mais realistas do que propriamente afetivas, verdadeiras narrativas pra boi dormir (no caso, cair nos risos ao lê-las), entretendo, revelando essa nua nova face de Literato contemporâneo que muito merecidamente por certo já o é. Quer saber? Basta buscá-lo num site como o Google, e você vai achá-lo em tudo quanto é lugar, quase 500 links. Com tantos prêmios de renome, vários livros, constando em mais de cem antologias literárias em verso e prosa, até no exterior, é de se esperar de Silas Correa Leite, a cada novo livro, uma mostra de sua lucidez e qualidade lítero-cultural.

O Livro O HOMEM QUE VIROU CERVEJA esteve na estande da Giz Editorial, na Bienal do Livro do Rio de Janeiro (Setembro 2009), e tornou-se uma espécie de fechamento de ciclo do escritor premiado, poeta, ficcionista, resenhista, crítico, preparando-se para outros novos voos, outras obras impressionantes, surpresas letrais, trabalhos diferenciados, acima da média e sempre contundentes, altamente criativos com imaginação fora de série, no caso deste livro O HOMEM QUE VI VIROU CERVEJA, literalmente fora do sério...

Aliás, o autor, que acompanho faz tempo (trabalho uma tese sobre sua importância na nova literatura brasileira), já tem um romance “aprovado” por uma importante editora da grande São Paulo, um sendo avaliado por uma editora emergente do sul, está preparando ainda outros livros, como um novo de poesia, um novo de contos, um sobre vivências na educação pública, talvez um já sobre Fortuna Crítica, alguns infantis ou infanto-juvenis, todos em surrealismo ou realismo fantástico, enquanto em tantos blogues divulga suas letras-de-rock-poemas, entre tantas baladas e blues que compõe e que ainda permanecem inéditas em gravações.

Almeida Fischer disse:

“Um escritor se firma e permanece na lembrança de seus contemporâneos especialmente em função de sua inventiva, de sua técnica, de sua linguagem e/ou do seu poder renovador”.


Silas Correa Leite é exatamente isso; é assim, quem o conhece fica só sondando qual a própria criação a tirar da cartola de sua mente. Não vem fazendo sucesso por acaso. Não vem sendo entrevistado ou reportagem na chamada grande mídia porque escreve água com açúcar. Muito pelo contrário. Como ele tem apenas 57 anos, entre palestras, críticas sociais, ensaios e outros trabalhos em verso e prosa, não é de surpreender que o tal do “neomaldito da web” vire mesmo pop e cult, talvez entre para uma academia de letras, ou seja reconhecido por uma grande editora que banque sua obra de grosso calibre, porque é um escritor que tem muito o que produzir, criar, encantar.
-0-
Antonio T. Gonçalves
SP – E-mail: tudotito@zipmail.com.br
poesilas wrote on Nov 20, '09
Poema do Trabalho Escravo Brasileiro

1
Índio não qué trabaiá
Mas que nativo vagabundo!
A gente obriga ele caçá
E plantá
Ele foge pra mata, garra o mundo

2
Escravo não qué trabaiá
Fica com banzo feito carcará
A gente manda ele cuidá
Do cafezá
Ele foge e a gente tem que caçá

3
Imigrante não qué se escravizá
Só sabe sê anarquista
A gente obriga ele a trabaiá
Não turista
Em terra que se plantando tudo dá

...............................................

Operário pra exploração há
Mas faz greve – qué direito de gente
Se não for escravo como antigamente
De repente
Ainda vão querê elegê presidente!
-0-


Poeta Silas Corrêa Leite
poesilas@terra.com.br
Site pessoal: www.itarare.com.br/silas.htm
Romance ELE ESTÁ NO MEIO DE NÓS no site
www.hotbook.com.br/rom01scl.htm


poesilas wrote on Nov 6, '09
As Escolas não ensinam, mas deveriam ensinar

Postado por Ramos Nunes


Texto de Silas Corrêa Leite

01)="Deveriam" Ensinar, a partir do próprio projeto pedagógico como um todo (“ensino-aprendizagem”) que a vida não é nada fácil, e, com uma didática hábil e construtivista nesse sentido, satisfatoriamente dariam então chances concretas aos alunos de terem o devido conhecimento de, como, na realidade funciona a difícil vida fora do lar, fora do bairro, fora do circuito escolar; assim todos os alunos se preparariam muito melhor – e, claro, se sairiam bem melhor depois, no mundo real, na concorrência, no mercado de trabalho - até mesmo nas atividades sociais, principalmente nesse nosso injusto e nada ético tropical capitalismo selvagem, onde todos sobre/vivem em eterna luta entre contrastes sociais, constantes mudanças e seqüenciais reciclagens evolutivas sem parar.

02)="Deveriam" Ensinar que, a sociedade como um todo, na verdade tá pouco se lixando pra tal sensibilidade jovial do aluno, pro seu bem viver salutar, pra sua vontade de ser feliz plenamente apesar de tudo, pra sua auto-estima. O ser-cidadão que o aluno em si deve representar num contexto todo, vai ser como uma espécie literal de “laranja”. Enquanto der caldo bom além do quesito da mais valia, será devidamente usado (sua força física como motor, sua mente produtiva na flor da idade) depois, que virar bagaço, não servirá mais pra nada, será descartável. Esse é o pensamento único de nosso capitalhordismo americanalhado terceiro-mundista.

03)="Deveriam" Ensinar que, na verdade não há emprego para todos, essa é a real. Como no mundo animal, numa comparação imediatista que seja, o mais forte, o mais rico, o mais culto, o mais inteligente, o mais determinado e, eventualmente até o mais bonito é que superarará o outro em situação assim de inferioridade. Os outros (...) serão os “manés”, os descamisados, os excluídos sociais, os rejeitos por algum motivo ou força de irrazão de mercado. A Escola é uma saída. Talvez seja a única saída. E eles, os alunos, devem mesmo estudar M U I T O !. Depois, trabalho, poupança (sacrifícios) e mais estudo constante a médio e longo prazo, sem parar, quando o herói, o forte, o sobrevivente, o poupador – sim, o CDF cara – e determinado é que sairá vencedor e será quase que um novo lobo entre lobos...

04)="Deveriam" ensinar que, depois do Pai, da Mãe, o Professor deve ser, tem que ser sim (procure que ele seja mesmo de qualquer maneira) o melhor amigo do mundo. Se você acha o seu mestre chato, baby, espere só pra ver o seu guarda-noturno, o seu síndico, o seu inspetor de alunos ou de quarteirão, o vigia do shopping, o policial, o delegado, o primeiro patrão. Patrão é um pé na...rotina. Quem estuda muito, vira chefe, vai acabar dando ordem, e mesmo o patrão pega leve com ele, sacou? Aliás, quem não estuda vai ser o peão na escala que gira adjacente à triste relação capital-trabalho. E o patrão não respeita quem fala mal, escreve mal, fala gírias, usa roupas berrantes, é uma aberração num radicalismo vazio de rebelde sem causa. Quem não estuda é um pato da situação, vai ser explorado de todo jeito, salvo, é claro, honrosas exceções em casos bem excepcionais. Então, o seu “professor chato” (você vai e lembrar nessa hora) será então lembrado como um doce, um anjo. Você ainda terá muitas saudades dele que pegava no seu pé, puxava pela sua cabeça, estava do seu lado e não contra você ou tirando lucro com seu suor, a sua lágrima, o seu sangue Isso é capitalismo, filho. Tá boiando, é ?

05)="Deveriam" ensinar que, se for para catar latinhas...que o idealista (ou por força imperiosa de precisão) monte uma equipe determinada, funcionalmente hábil e produtiva. Adote valores essenciais. Bote uma turma pra fazer isso pra você, use a cabeça. Monte uma usina de fundo de quintal. Distribuía serviços, afazeres, técnicas, manejos, reciclagens, visão auto-sustentável, orçamentos, gráficos e produções. Além disso você pode ser um gerente, um dono (micro empresário), faturar algum, numa boa, ganhar dinheiro só usando o pensar/criar com inteligência...que praticou aonde? Na Escola. Isso vale até para servir de parâmetro, gerar emprego no meio familiar, entre outros acertos circunstanciais. Nenhum emprego é vergonha. Se você souber administrar um problema, uma situação, uma necessidade ou carência, cada condição será lucrativa, dará certo. E poder. Status. Oferta e procura. Lei de mercado. Você cabulou essa aula? Muita gente começa montando sua empresa em casa, seu primeiro negócio, e depois vira empresário dessa forma, aos poucos, com muita dedicação, visão, sentido de busca. Ninguém começa de cima. Milagre é só no reino da fantasia. Deus não dá asas para quem não sabe nem estudar direito...

06)="Deveriam" ensinar que, se você cair, mano, a culpa é toda sua, tá ligado? Seus pais e mestres não têm culpa nenhuma. Você é o responsável pelo que você se tornar. Se você fizer besteira, hasta la vista baby, a culpa é toda sua, sem tirar nem pôr. Você, só você, é responsável pelo seu sucesso ou fracasso, Pense nisso. Você vai se prestar contas um dia, mais cedo ou mais tarde. Isso vai doer muito, sabe? O que você conseguiu ser, o que você não soube ser. Não há desculpa no fracasso, na caída. Ninguém chuta cachorro morto. E você pode fazer do lugar em que estuda, o “lugar-pessoa” que você é e se tornar um grande vencedor. Qual é a desculpa agora? Saia dessa.

07)="Deveriam" ensinar que os pais são sagrados. Você não está aqui para julgá-los. Não tem esse direito. Você vai é poder julgar os seus filhos, quando eles fizerem as mesmas besteiras que você fez, feito alienado entre colegas estúpidos. Seus pais venceram em situação muito pior do que você. Não estão aqui para sustentar você. Eles são heróis e você ainda quer criticá-los? Quem é você para se insurgir contra seus pais? Comece a mudar agora a sua cara, o seu jeito, o seu quarto, a sua casa, seu enfoque, ou, no dito no popular, curto e grosso: vá trabalhar, vagabundo!

08)="Deveriam" ensinar que, se a Escola passa todo mundo - você já ouviu isso? – na vida real lá fora não é bem assim, todo mundo afina, treme, titubeia, cede, refuga, quando não rasteja feio. A realidade é outra. A verdade dói. No colégio tem de merendeiro a psicólogo, de assistente social a professora substituta pra você torrar a paciência, de servente a coordenador pedagógico. Na vida lá fora, a barra tá pesada, baby. Ninguém vai passar por você, o que você mesmo tem que passar para ficar com o couro grosso, aprender valentias de percurso, crescer, ser alguém que preste, se souber ser. Você pode até não repetir no ciclo escolar, mas vai levar pau no vestibular e na escola da vida que é muito mais difícil de encarar. E vai ser um zero a esquerda na vida. O mundo lá fora é pra tigre, você é um gatinho mimado? O mundo lá fora é pra guerreiro: você é manteiga derretida, turrão, frouxo ou xarope? Um tapinha não dói...

09)="Deveriam" ensinar que a cada turno da vida, há uma paulatina evolução. E quem ama pune. E quem é vivo aprende, pega o jeito, adapta-se, cria alternativas. Quem se educa, cresce. Tudo é motivo para grandes esperanças, energias canalizadas num propósito superior, geração de empreendimentos, pois sem orar e vigiar não somos nada. O que você vai ser quando crescer? Um derrotado? Um filhote babão alegando que não deu sorte na vida?. O tempo é aqui e agora, o banco da sala de aula. O momento é já. Você vai ficar aí parado, caçando calma pra se coçar, quando a vida é empenho e viver é lutar? A vida só favorece grandes batalhas, para os fortes, os especiais, os grandes que querem ser heróis e enfrentar situações-limites com coragem e esforço fora do comum, levantando muito cedo, dormindo muito tarde, estudando em finais de semana, feriados, férias, lendo, pesquisando sempre. Tudo o que é fácil pra você, torna você uma presa fácil na vida bandida lá fora. Qual é a sua cara pálida? Tá surtando, é ?

10)="Deveriam" ensinar que, no vídeo-game a vida ganha pontos vitais, que no cerol você faz sacanagem, e corre o mesmo risco na próxima tentativa de subir fácil, que na droga você cultua neuras e imagens fáceis de sucesso, pois o esquema ilude você, você é vítima e pensa que é só um usuário que tem o controle de tudo, dando grana pra marginais. Babaca. Na violência você planta o seu fruto podre, o seu futuro de derrotado. Na terra tudo é ilusão, tudo é sonho, quando não infâmias e sandices. Para ser alguém na vida, você terá que ralar muito, tem que esquecer o bar, o forró, o carnaval, a mina, a praia, a turma da pesada. Qual é a sua cara, vai encarar ou fazer firulas com rapagões, perder tempo precioso?. Machos dançam também. A tatuagem não te dá diploma. Nem o rock ou o surf ou no skate e o rap. Lembre-se, o cara CDF que você zoa, e que pra você não passa de um babaca e que no seu entender limitado é puxa-saco dos professores, ainda vai brilhar, vai ser alguém, ser importante, ser feliz, fazer a diferença. E você, seu mané, acredite, você vai ser empregado do filho dele, trabalhar pra ele a troco de banana, e depois ainda achando, quando acabar velho e tolo, pobre e frustrado, feito um radical que dançou feio, que o sucesso cai do céu. Não cai. O sucesso não acontece por acaso. Os ricos estudam para ficarem ainda mais ricos, continuarem ricos, para não perderem posses nesses tempos difíceis. E você, não vai estudar por quê? O trabalho é o melhor remédio, mas, além, de correr trás do prejuízo – o mar não tá pra peixe – você vai ter que tomar uma decisão e partir pra cima do seu sonho, refazer sua vida. Deixe de ser molenga e vá a luta. Não pule etapas. Não perca tempo. O amanhã espera por você, e numa curva do tempo o futuro que virá cobrar erros e descaminhos. Não tem desculpa. O que é que você vai fazer de sua vida? Cabular aula? Colar na prova? Mentir pra você mesmo? Brigar com o Professor? Depredar a Escola? Entrar numas? Dos melhores alunos nascem os melhores cidadãos, os melhores críticos, os melhores VENCEDORES. Qual é a sua opção? Faça a escolha certa.

Silas Corrêa Leite – De Itararé, SP/Brasil - Educador, Jornalista, Escritor, pós-graduado em Educação, Literatura e Jornalismo (ECA/USP) – Ganhador do Prêmio Lígia Fagundes Telles Para Professor Escritor (Edição 2004)

Texto da Série “Inventários e Partilhas”


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poesilas wrote on Sep 19, '09
Crítica


“O Homem Que Virou Cerveja”, Livro Premiado de Crônicas de Silas Corrêa Leite



Depois de finalista do Prêmio Telecom de Portugal, com seu livro de contos premiados ‘CAMPO DE TRIGO COM CORVOS´, Editora Design, Santa Catarina a venda na www.livrariacultura.com.br, Silas Correa Leite, o tachado de “O Neomaldito da Web” (pelo site Capitu), com bela entrevista polêmica num dos últimos Programas “Provocações” da TV Cultura (SP) do Antonio Abujamra (o vídeo está fazendo sucesso no YouTube como Poeta Silas C. Leite), está lançando agora o livro de “crônicas hilárias de um poeta boêmio”, chamado ‘O HOMEM QUE VIROU CERVEJA´, Giz Editorial, SP, Prêmio Valdeck Almeida de Jesus, Salvador, Bahia.

A obra traz a famosa crônica de humor que nomina o novo livro, entre causos (de Itararé, é claro!), croniquetas diversas (sobre Mania de Banho, Fanático Por Bar, Baristas), entre um e outro tributo à boêmia; acontecências engraçadas de Santa Itararé das Letras (como ele mesmo diz) e de Sampa, onde o autor exilado de sua terra-mãe reside (no Butantã). Contações do arco da velha, e ainda o belíssimo texto “A Voz da Filha Que Não Houve” (foi vertida para o espanhol por um site aí, e ficou ainda mais belamente triste), e mesmo a tal da Declaração Universal dos Direitos dos Boêmios que é um destaque nas infovias da web, tão criativo texto quanto o próprio Estatuto de Poeta que corre a rede da net vertida para o espanhol e inglês, e que constou no livro Porta-Lapsos, Poemas, Editora All-Print, SP.

Da “Poética da Tristeza”, como na polêmica entrevista ao Provocações, em que o autor soberano driblou o Mefisto do Abujamra, passando pelo e-book de sucesso O RINOCERONTE DE CLARICE, primeiro livro interativo da rede mundial de computadores, tese de doutorado na UFAL, novamente Silas Correa Leite surpreende pela peculiaridade, estilo, domínio da escrita, fluência, desta feita paradoxalmente em alto astral, onde, irônico, traz um sortido de historiais, ainda com crônicas apimentadas de sensualidade em relações humanas extremamente mais realistas do que propriamente afetivas, verdadeiras narrativas pra boi dormir (no caso, cair nos risos ao lê-las), entretendo, revelando essa nua nova face de Literato contemporâneo que muito merecidamente por certo já o é. Quer saber? Basta buscá-lo num site como o Google, e você vai achá-lo em tudo quanto é lugar, quase 500 links. Com tantos prêmios de renome, vários livros, constando em mais de cem antologias literárias em verso e prosa, até no exterior, é de se esperar de Silas Correa Leite, a cada novo livro, uma mostra de sua lucidez e qualidade lítero-cultural.

O Livro O HOMEM QUE VIROU CERVEJA esteve na estande da Giz Editorial, na Bienal do Livro do Rio de Janeiro (Setembro 2009), e tornou-se uma espécie de fechamento de ciclo do escritor premiado, poeta, ficcionista, resenhista, crítico, preparando-se para outros novos voos, outras obras impressionantes, surpresas letrais, trabalhos diferenciados, acima da média e sempre contundentes, altamente criativos com imaginação fora de série, no caso deste livro O HOMEM QUE VI VIROU CERVEJA, literalmente fora do sério...

Aliás, o autor, que acompanho faz tempo (trabalho uma tese sobre sua importância na nova literatura brasileira), já tem um romance “aprovado” por uma importante editora da grande São Paulo, um sendo avaliado por uma editora emergente do sul, está preparando ainda outros livros, como um novo de poesia, um novo de contos, um sobre vivências na educação pública, talvez um já sobre Fortuna Crítica, alguns infantis ou infanto-juvenis, todos em surrealismo ou realismo fantástico, enquanto em tantos blogues divulga suas letras-de-rock-poemas, entre tantas baladas e blues que compõe e que ainda permanecem inéditas em gravações.

Almeida Fischer disse:

“Um escritor se firma e permanece na lembrança de seus contemporâneos especialmente em função de sua inventiva, de sua técnica, de sua linguagem e/ou do seu poder renovador”.


Silas Correa Leite é exatamente isso; é assim, quem o conhece fica só sondando qual a própria criação a tirar da cartola de sua mente. Não vem fazendo sucesso por acaso. Não vem sendo entrevistado ou reportagem na chamada grande mídia porque escreve água com açúcar. Muito pelo contrário. Como ele tem apenas 57 anos, entre palestras, críticas sociais, ensaios e outros trabalhos em verso e prosa, não é de surpreender que o tal do “neomaldito da web” vire mesmo pop e cult, talvez entre para uma academia de letras, ou seja reconhecido por uma grande editora que banque sua obra de grosso calibre, porque é um escritor que tem muito o que produzir, criar, encantar.
-0-
Antonio T. Gonçalves
SP – E-mail: tudotito@zipmail.com.br



poesilas wrote on Aug 2, '09

SALVE O MUNDO



Para a Amiguermã Educadora Iluminada Maria Rita Açucena


Salvar o Mundo é sentir a dor do outro
Se colocar no lugar existencial dele
Colocar a pele da alma, uma luz maior
Vivenciar um sentido ético-plural-comunitário de vida
Todos por um; amor ao próximo, companheirismo e fé na luta

Salve o mundo: você é parte da embarcação
Você é parte dele, um elo na corrente
Parte consciente da Humanidade
A espécie humana regojiza com esse empreendimento
Quando você assume a sua parte nesta grande viagem de existir

Salvar o mundo é compartilhar assim
Amor e dor, pão e pétala, abraços
Amparar o excluído, sendo um Sentidor
A dor do outro; dando a sua cota de humanismo porque
Somos todos passageiros da enorme barriga desta Terra-Mãe

Salve o mundo, salve além de sua parte
Um por todos, dê testemunho assim
Abrace causas, seja aquele que age
Muitos são chamados e poucos escolhidos, você pode ser a saída
Aquele que está no coração da inteligência como esperança da vida

Silas Correa Leite, Augusta Sampa, Nave 2009
Poema da Série “Éramos Todos Blues”
E-mnail: poesilas@terra.com.br
Blogue: www.portas-lapsos.zip.net




poesilas wrote on May 28, '09
Artigo/Resenha Crítica


ROMANCE “A MULHER, O HOMEM E O CÃO”,
UMA ‘NEVERLAND’ NA HILÉIA AMAZÔNICA

Por Silas Correa Leite*

“Com o que não te digo/
Teço um enigma/
O que digo sempre/
Nega o evidente(...)

Inconfesso, Antonio Mariano
In, Guarda-Chuvas Esquecidos
Editora Lamparina


Para falar do novo livro do escritor paraense radicado em Taubaté-SP, Nicodemos Sena, “A Mulher, o Homem e o Cão” (Ed. LetraSelvagem, 2009, Coleção Gente Pobre, 152 pág.) não teria como não me reportar ao sucesso que foi a portentosa obra “A Espera do Nunca Mais” (Ed. Cejup, 1999), um caudaloso romance elogiado pela crítica, “que faz meio-termo entre ficção e realidade (...); alto estilo, demonstrando vigor e consciência estética(...)”, segundo Ronaldo Cagiano (in Opção Cultural). A amazônica como um todo, resgatada e retratada, do rural-agreste e ermo aos ‘anos de chumbo’ da ditadura militar (o escritor é um retratista de seu tempo e das amarguras de seu tempo?), no letral, literal, e lítero-culturamente sob todos os aspectos. “Uma aula de Amazônia (...)”, diz Oscar D’Ambrosio (in Caderno de Sábado, Jornal da Tarde).
Coloco pra mim, entre os dez melhores romances brasileiros, não necessariamente numa ordem linear, “Dom Casmurro” ( Machado de Assis), “Grande Sertão: Veredas” (Guimarães Rosa), “Vidas Secas” (Graciliano Ramos), “Incidente em Antares” (Érico Veríssimo), “Crônica de Uma Casa Assassinada” (Lúcio Cardoso), “Macunaíma” (Mário de Andrade), “O Cortiço” (Aluisio de Azevedo), “Dona Flor e seus Dois Maridos” (Jorge Amado), “O Cais da Sagração” (Josué Montello), e, entre todos os do Autran Dourado (que é ótimo em tudo o que escreve), o recente romance “A Mulher, o Homem e o Cão”, de Nicodemos Sena, certamente o maior romancista brasileiro contemporâneo, pouco pop e naturalmente muito cult, diga-se de passagem.
Como gosto de ler um livro de fio a pavio (e nas entre/linhas), como se comesse uma iguaria pelas beiradas, defeito-qualidade de um glutão de letras e gastronomias de quilate, já sondei a orelha de um dos maiores críticos brasileiros de todos os tempos, o Oscar D´Ambrósio, que aponta Nicodemos Sena como um grande contador de histórias com mitos que se cruzam com o mundo fantástico do autor, acordando o gigante adormecido da capacidade de raciocinar enquanto ser humano (picadeiro de dilemas, enigmas e desafios do verbo existir). Vá vendo. Quero dizer, vá lendo. Deguste.
Depois, o prefácio da doutora Christina Ramalho (UFRJ), que nomina a obra como um “... caleidoscópio com tantos significados próprios, metamorfoses sobrenaturais plurissignificativas (...).” A floresta invadindo a obra do autor, que deixou a Amazônia, mas a Amazônia não o deixou, ou seja: vai com ele por onde ele for, sendo ele, é ele, selva-metáfora, o homem em busca de si mesmo, na selva urbana exaurida, dentro de si, no escre-Viver. Por aí.
No posfácio, Dirce Lorimier Fernandes (doutora em História e da APCA), fala do rico mundo encantado de criação, mistérios e encantamentos na obra de Nicodemos Sena. A inutilidade da existência (por isso escrevemos, criamos, deixamos nosso documento-identidade em sons, palavras, símbolos, crenças, devaneios, enigmas e artes loucas?). O autor rasga o véu da alma-mente-espírito, e numa treva branca destila-se, o tudo sentir, o sobre/Viver. Eis o homem.
Por fim – antes de entrarmos nos ramos qualificados da obra propriamente dita – uma surpresa: Um pós-posfácio do próprio autor (Acerca de “A Mulher, o Homem e o Cão”), falando de seu solilóquio, monólogo interior, desconfianças; encerrando assim: “... basta dizer que a selva, onde vivem as personagens (e onde eu nasci), é, no livro (...) apenas a metáfora de todas as solidões terrenas”. Lindo.
O romance-livro realmente é de linda floração cultural e envergadura literária (qualidade técnico-editorial de primeira, capa de James Valdana, desenho de capa e miolo Olga Savary); de se pegar e não largar mais. Cativador na elegante fruição, entre subidas e descidas aos céus (todos os céus, não se sabendo se o céu – qualquer um – veio até Nicodemos ou ele é que foi até ele). Elogiado pela crítica especializada, esse autor paraense tem um jeito todo próprio de narrar, ir e vir nas orações, levar e trazer o leitor, cativando, encantando, sacudindo-o. Grande estilo.
Aqui e ali, um personagem (personagem?) meio malazártico, numa narrativa bem macunaímica, sua narrativa às vezes nos remetendo à literatura fantástica (personagens bizarros até), de um anarquista misterioso, estilo utópico, B. Traven (Chicago 1890, México 1969), que teve na sua obra, como pano de fundo, a floresta mexicana (“O Visitante Noturno” entre outra criações de relevo), ficando um triângulo de Nicodemos Sena entre Macário de B. Traven, Macondo (de Gabriel Garcia Marques, do qual Nicodemos carrega aqui e ali parecenças) e o “espaço” floresta amazônica no livro, um não-lugar, um lugar-nenhum-todo-lugar/qualquer lugar, ele mesmo, o autor, Nicodemos Sena impregnado de talento, criatividade e técnica densa de narrar com veias e variações, as propriedades e impropriedades de suas origens, raízes, matrizes, mãe(s)-Terra/rio. O fado do destino humano sujeito a incongruências mesmo... Será o impossível?
Sim, a nova obra do autor, “A Mulher, o Homem e o Cão”, tem o sígnico da relação homem-terra, homem-rio, homem-celestidades, homem-demônios (e fantasmas) da terra, rio (e céus?); triângulo com o macho, a fêmea e o sobrenatural. Paradoxalmente ao que o próprio autor diz no livro (pág.25), é na escreveção que os homens sensíveis se refugiam da loucura. A loucura é santa? “Deus usa os loucos para confundir os sábios?”.
Coisas visíveis e invisíveis se metamorfoseiam nas narrativas cativantes, só que o leitor tem que estar bem enlivrado, por assim dizer, para ir, aqui e ali, sacando inteiro e completo, recebendo outro novo inédito enfoque concomitante ou adjunto (histórias na história), a árvore-janela, o cão-passarinho, o homem-peixe, o Deus que não é deus, o enlevo, a catarse, o onírico, colheitas de mitos retraduzidos e retrazidos. E o autor diz na contação da recontação literária em graça de prosa poética:
“É esse, senhor, o efeito do espanto: o espírito esforça-se por estabelecer uma relação, uma ligação de causa e efeito, mas, achando-se impotente para consegui-lo, sofre uma espécie de paralisia momentânea, e, tão logo se recupera do assombro, sente crescer dentro dele gradualmente uma convicção que clareia a mente e impulsiona o corpo (...). –Roubaram-nos a alma, agora tudo está encantado!”
A mulher-porca, as canoas de serpentes, o rio margem e beira (loucura-lucidez), tudo ciciando devaneios, registros, despojos letrais, acercamento. O rio de nossa infância, nossa origem, anda conosco, viaja conosco, sofre vazamentos, seca, aflui, tem sua derrama espiritual? O domador de mentes o que é? Ladrão de mulher, diria o mote popular parafraseado de um ente de circo.
Livro de peso que tem névoas clarificadas. Que dá gosto ler. Que se passa daqui prali, num sem-pulo, de um tópico frasal para outro, levando e trazendo o leitor boquiaberto, seduzido sim, onde a voz ora é de um (uma), ora de outro (outra... criaturas...). O autor costurando o xale de sua áurea-aura-halo. Incompletudes. Desabandonos. Desespelhos.
Na alegria e na tristeza, na fome e na dor... como um casamento do autor com o dom, a sua terra, o seus rios (lacrimais), agonias, angústias, causos do arco da velha vêm inventariados, inverdades, não mentiras, o próprio ofício de criação com iluminuras de espectros, ressentimentos, passados, transcendências, travessias, veios, cisternas, corredeiras, jorros; palco iluminado para dar voz e vazão a seres e não-seres, num imaginário pra lá de espetacularmente rico, portentoso.
Aqui e ali, paráfrases bíblicas bem situadas (há um Deus), narrativas que lembram recorrências de um Jó bíblico negando-se a si mesmo sem negar o Criador, chuvas, nuvens, paragens, afogadilhos e afogados com lanternas, o repugnante e o sagracial, e entra no historial das contações com barulhanças e tristices, de Nero a Hitler, passando por Herodes, aqui e ali tentando um sentir imenso a partir de um nada sentir (o autor ficou doente depois de escrever o livro?... Mistério... Lenda...).
Os sobre-humanos estão nas páginas do livro, nas páginas de rostos-purgações, de restos-retalhos-retratações-partilhas (histórias do ouvi-dizer, ouvi-viver), ou na própria concepção magistral como um todo da obra?
Pois é: eis a obra, eis o autor, e, cá entre nós, eis uma tentativa de resenha crítica de quem se apaixonou pelo romance “A Mulher, O Homem e o Cão”.
Aliás, falando sério, qual dos três (entre tantos) personagens do tema-obra gostaria de escrever uma história assim?
Nunca se sabe o desfecho de uma fábula. Leia e deguste.


*Silas Correa Leite – Autor de Campo de Trigo Com Corvos, Contos, Editora Design, Finalista do Prêmio Telecom, Portugal. Teórico da Educação, Jornalista Comunitário, Conselheiro em Direitos Humanos (SP). E-mail: poesilas@terra.com.br
www.portas-lapsos.zip.net – Blog premiado do UOL


BOX

Livro: “A Mulher, O Homem e o Cão”, Romance, Ficção, 2009, 152 pgs.
Editora Letra Selvagem, SP
Autor: Nicodemos Sena
Site da editora: www.letraselvagem.com.br

E-mail do autor: letraselvagem@letraselvagem.com.br



poesilas wrote on May 28, '09
Artigo/Resenha Crítica


ROMANCE “A MULHER, O HOMEM E O CÃO”,
UMA ‘NEVERLAND’ NA HILÉIA AMAZÔNICA

Por Silas Correa Leite*

“Com o que não te digo/
Teço um enigma/
O que digo sempre/
Nega o evidente(...)

Inconfesso, Antonio Mariano
In, Guarda-Chuvas Esquecidos
Editora Lamparina


Para falar do novo livro do escritor paraense radicado em Taubaté-SP, Nicodemos Sena, “A Mulher, o Homem e o Cão” (Ed. LetraSelvagem, 2009, Coleção Gente Pobre, 152 pág.) não teria como não me reportar ao sucesso que foi a portentosa obra “A Espera do Nunca Mais” (Ed. Cejup, 1999), um caudaloso romance elogiado pela crítica, “que faz meio-termo entre ficção e realidade (...); alto estilo, demonstrando vigor e consciência estética(...)”, segundo Ronaldo Cagiano (in Opção Cultural). A amazônica como um todo, resgatada e retratada, do rural-agreste e ermo aos ‘anos de chumbo’ da ditadura militar (o escritor é um retratista de seu tempo e das amarguras de seu tempo?), no letral, literal, e lítero-culturamente sob todos os aspectos. “Uma aula de Amazônia (...)”, diz Oscar D’Ambrosio (in Caderno de Sábado, Jornal da Tarde).
Coloco pra mim, entre os dez melhores romances brasileiros, não necessariamente numa ordem linear, “Dom Casmurro” ( Machado de Assis), “Grande Sertão: Veredas” (Guimarães Rosa), “Vidas Secas” (Graciliano Ramos), “Incidente em Antares” (Érico Veríssimo), “Crônica de Uma Casa Assassinada” (Lúcio Cardoso), “Macunaíma” (Mário de Andrade), “O Cortiço” (Aluisio de Azevedo), “Dona Flor e seus Dois Maridos” (Jorge Amado), “O Cais da Sagração” (Josué Montello), e, entre todos os do Autran Dourado (que é ótimo em tudo o que escreve), o recente romance “A Mulher, o Homem e o Cão”, de Nicodemos Sena, certamente o maior romancista brasileiro contemporâneo, pouco pop e naturalmente muito cult, diga-se de passagem.
Como gosto de ler um livro de fio a pavio (e nas entre/linhas), como se comesse uma iguaria pelas beiradas, defeito-qualidade de um glutão de letras e gastronomias de quilate, já sondei a orelha de um dos maiores críticos brasileiros de todos os tempos, o Oscar D´Ambrósio, que aponta Nicodemos Sena como um grande contador de histórias com mitos que se cruzam com o mundo fantástico do autor, acordando o gigante adormecido da capacidade de raciocinar enquanto ser humano (picadeiro de dilemas, enigmas e desafios do verbo existir). Vá vendo. Quero dizer, vá lendo. Deguste.
Depois, o prefácio da doutora Christina Ramalho (UFRJ), que nomina a obra como um “... caleidoscópio com tantos significados próprios, metamorfoses sobrenaturais plurissignificativas (...).” A floresta invadindo a obra do autor, que deixou a Amazônia, mas a Amazônia não o deixou, ou seja: vai com ele por onde ele for, sendo ele, é ele, selva-metáfora, o homem em busca de si mesmo, na selva urbana exaurida, dentro de si, no escre-Viver. Por aí.
No posfácio, Dirce Lorimier Fernandes (doutora em História e da APCA), fala do rico mundo encantado de criação, mistérios e encantamentos na obra de Nicodemos Sena. A inutilidade da existência (por isso escrevemos, criamos, deixamos nosso documento-identidade em sons, palavras, símbolos, crenças, devaneios, enigmas e artes loucas?). O autor rasga o véu da alma-mente-espírito, e numa treva branca destila-se, o tudo sentir, o sobre/Viver. Eis o homem.
Por fim – antes de entrarmos nos ramos qualificados da obra propriamente dita – uma surpresa: Um pós-posfácio do próprio autor (Acerca de “A Mulher, o Homem e o Cão”), falando de seu solilóquio, monólogo interior, desconfianças; encerrando assim: “... basta dizer que a selva, onde vivem as personagens (e onde eu nasci), é, no livro (...) apenas a metáfora de todas as solidões terrenas”. Lindo.
O romance-livro realmente é de linda floração cultural e envergadura literária (qualidade técnico-editorial de primeira, capa de James Valdana, desenho de capa e miolo Olga Savary); de se pegar e não largar mais. Cativador na elegante fruição, entre subidas e descidas aos céus (todos os céus, não se sabendo se o céu – qualquer um – veio até Nicodemos ou ele é que foi até ele). Elogiado pela crítica especializada, esse autor paraense tem um jeito todo próprio de narrar, ir e vir nas orações, levar e trazer o leitor, cativando, encantando, sacudindo-o. Grande estilo.
Aqui e ali, um personagem (personagem?) meio malazártico, numa narrativa bem macunaímica, sua narrativa às vezes nos remetendo à literatura fantástica (personagens bizarros até), de um anarquista misterioso, estilo utópico, B. Traven (Chicago 1890, México 1969), que teve na sua obra, como pano de fundo, a floresta mexicana (“O Visitante Noturno” entre outra criações de relevo), ficando um triângulo de Nicodemos Sena entre Macário de B. Traven, Macondo (de Gabriel Garcia Marques, do qual Nicodemos carrega aqui e ali parecenças) e o “espaço” floresta amazônica no livro, um não-lugar, um lugar-nenhum-todo-lugar/qualquer lugar, ele mesmo, o autor, Nicodemos Sena impregnado de talento, criatividade e técnica densa de narrar com veias e variações, as propriedades e impropriedades de suas origens, raízes, matrizes, mãe(s)-Terra/rio. O fado do destino humano sujeito a incongruências mesmo... Será o impossível?
Sim, a nova obra do autor, “A Mulher, o Homem e o Cão”, tem o sígnico da relação homem-terra, homem-rio, homem-celestidades, homem-demônios (e fantasmas) da terra, rio (e céus?); triângulo com o macho, a fêmea e o sobrenatural. Paradoxalmente ao que o próprio autor diz no livro (pág.25), é na escreveção que os homens sensíveis se refugiam da loucura. A loucura é santa? “Deus usa os loucos para confundir os sábios?”.
Coisas visíveis e invisíveis se metamorfoseiam nas narrativas cativantes, só que o leitor tem que estar bem enlivrado, por assim dizer, para ir, aqui e ali, sacando inteiro e completo, recebendo outro novo inédito enfoque concomitante ou adjunto (histórias na história), a árvore-janela, o cão-passarinho, o homem-peixe, o Deus que não é deus, o enlevo, a catarse, o onírico, colheitas de mitos retraduzidos e retrazidos. E o autor diz na contação da recontação literária em graça de prosa poética:
“É esse, senhor, o efeito do espanto: o espírito esforça-se por estabelecer uma relação, uma ligação de causa e efeito, mas, achando-se impotente para consegui-lo, sofre uma espécie de paralisia momentânea, e, tão logo se recupera do assombro, sente crescer dentro dele gradualmente uma convicção que clareia a mente e impulsiona o corpo (...). –Roubaram-nos a alma, agora tudo está encantado!”
A mulher-porca, as canoas de serpentes, o rio margem e beira (loucura-lucidez), tudo ciciando devaneios, registros, despojos letrais, acercamento. O rio de nossa infância, nossa origem, anda conosco, viaja conosco, sofre vazamentos, seca, aflui, tem sua derrama espiritual? O domador de mentes o que é? Ladrão de mulher, diria o mote popular parafraseado de um ente de circo.
Livro de peso que tem névoas clarificadas. Que dá gosto ler. Que se passa daqui prali, num sem-pulo, de um tópico frasal para outro, levando e trazendo o leitor boquiaberto, seduzido sim, onde a voz ora é de um (uma), ora de outro (outra... criaturas...). O autor costurando o xale de sua áurea-aura-halo. Incompletudes. Desabandonos. Desespelhos.
Na alegria e na tristeza, na fome e na dor... como um casamento do autor com o dom, a sua terra, o seus rios (lacrimais), agonias, angústias, causos do arco da velha vêm inventariados, inverdades, não mentiras, o próprio ofício de criação com iluminuras de espectros, ressentimentos, passados, transcendências, travessias, veios, cisternas, corredeiras, jorros; palco iluminado para dar voz e vazão a seres e não-seres, num imaginário pra lá de espetacularmente rico, portentoso.
Aqui e ali, paráfrases bíblicas bem situadas (há um Deus), narrativas que lembram recorrências de um Jó bíblico negando-se a si mesmo sem negar o Criador, chuvas, nuvens, paragens, afogadilhos e afogados com lanternas, o repugnante e o sagracial, e entra no historial das contações com barulhanças e tristices, de Nero a Hitler, passando por Herodes, aqui e ali tentando um sentir imenso a partir de um nada sentir (o autor ficou doente depois de escrever o livro?... Mistério... Lenda...).
Os sobre-humanos estão nas páginas do livro, nas páginas de rostos-purgações, de restos-retalhos-retratações-partilhas (histórias do ouvi-dizer, ouvi-viver), ou na própria concepção magistral como um todo da obra?
Pois é: eis a obra, eis o autor, e, cá entre nós, eis uma tentativa de resenha crítica de quem se apaixonou pelo romance “A Mulher, O Homem e o Cão”.
Aliás, falando sério, qual dos três (entre tantos) personagens do tema-obra gostaria de escrever uma história assim?
Nunca se sabe o desfecho de uma fábula. Leia e deguste.


*Silas Correa Leite – Autor de Campo de Trigo Com Corvos, Contos, Editora Design, Finalista do Prêmio Telecom, Portugal. Teórico da Educação, Jornalista Comunitário, Conselheiro em Direitos Humanos (SP). E-mail: poesilas@terra.com.br
www.portas-lapsos.zip.net – Blog premiado do UOL


BOX

Livro: “A Mulher, O Homem e o Cão”, Romance, Ficção, 2009, 152 pgs.
Editora Letra Selvagem, SP
Autor: Nicodemos Sena
Site da editora: www.letraselvagem.com.br

E-mail do autor: letraselvagem@letraselvagem.com.br



poesilas wrote on May 18, '09
Extravio


Eu tento não odiar este mundo que me deram
Mas ninguém colabora
Eu tento ser feliz – a maior vingança é ser feliz
Mas, há os seres...humanos

Eu tento tirar de letra as porradas, fingir
Como se não fosse comigo o próprio existir
Mas há o inimigo íntimo, o dezelo, o falso, o doente
E os que nem de longe se parecem com seres

Eu tento deixar melhor o que vivi
Do que recebi
Tento fazer a minha parte; a arte como libertação
Desatando no meu escrever os chorumes que ferem minha
sensibilidade exaurida

Será que vou chegar ao fim, sem um fim em si mesmo?
Será que a lepra pseudo-humana continuará varrendo a terra?
Até quando o falso, o hipócrita, o cínico, o degelo, o degredo,
O esquizofrêmito de mulas, engodos e satélites?

Ah meu Deus, tende piedade da minha não tão santa paciência
Mas eu não agüento mais!

Eu tento não odiar, eu tento não sofrer, casca grossa que me firo
Mas no fundo da alma sou quartzo róseo sim
E a minha alma ferida anda cansada de ser rochedo
E eu tenho medo, muito medo, um eterno medo
De continuar perdoando, amando, escrevendo esses meus íntimos blues dolorosos sem fim
Sem que isso mude nada; nem me mude para sempre de mim...

Silas Correa Leite
E-mail: poesilas@terra.com.br
Blogue: www.portas-lapsos.zip.net
Fim de Março 2009
mritapsil wrote on Apr 23, '09
Oi Silas este fórum abri hoje para os alunos das 5ª e 6ª séries e gostaria que vc participasse. Este será mais interessante pq os alunos são mais amigáveis que os adolescentes que se sentem constrangidos > mas queria que vc participasse dos dois e mais do clubinho que será nossa teteia... bjo

Esse link é do clubinho das 5ª e 6ª séries

http://clubinhodoaluno.forunsgratis.net/index.php

Esse link é do fórum dos alunos das 8ªs

http://teens-conversas.forunsgratis.net/index.php

Inté mais
mritapsil wrote on Apr 22, '09
Free Image Hosting at www.picturetrail.com

O Jardim
(Maria Rita P.)

Este pedaço de mundo agora é meu
Este verde, este marrom e os lilases
Deste chão empoeirado,
Destes sons agudos do beija flor.
São dois não um. Agora vejo!
O piano, o violino, a composição de alguém.
Preciso respirar tranqüilamente!
Pedem por este momento meus pulmões
Sou desejo de um mundo melhor
De homens e mulheres melhores
“Homens embebedam-se, anulam-se
Meninos humilham-se, violentam-se
Mulheres desorientadas carregam suas famílias
Muitas são Barbies ou Cindis.
Este mundo me é puro delírio e dor.”
Ao som do violino, choro solo.
As flores amareladas ao chão
O vôo deste beija flor revigora
Esse momento é meu agora
Daqui a pouco sou do mundo
Que se ignora, eu não!
poesilas wrote on Apr 17, '09
C A N A R I N H O S
(TANTOS GARRINCHAS)

O futebol é o ópio do povo
João Saldanha

Quanto garrincha branquelo
Pobrezinho, pé-de-chinelo
Pelos extravios da vida em desvario se perdeu?
Quantos Rivelinos ou Pelés
Entre Ronaldos entre Manés
Nunca em verdade chegaram a realizar o sonho seu?

Quantos Garrinchas e Ronaldos
São pela vida penalizados
Vicissitudes entre as trilhas, na vida real, a fome?
E a cada ótimo craque Rivaldo
De tristeza resta um saldo
Pois entre tantos outros um montante de craque some

Quanto jogador excepcional
Ou mesmo craque fenomenal
Pela vida aqui e ali se desvia... ou é predado?
Quantos milhões de Robinhos
Ficam aniquilados pelos descaminhos
Entre a miséria e a violência é desviado?

Quase duzentos milhões de brasileiros
Jogando bola, craques artilheiros
Mas quantos ficarão sem terra e sem pão?
Quantos pretos, mestiços, mulatos
Sofrem diversos maltratos
Pelo racismo, descaso do estado, discriminação?

Já vi grande goleiro deficiente
Que pegava tudo, voava e diferente
Com um pé torto até o impossível defendia
Já vi artilheiro bem valente
Mesmo que penso, seguia em frente
Fintava como ninguém dito normal fazia?

Tantos são os excluídos
Pelos descaminhos destruídos
Nas periferias, vitimizados em dor e judiação
No Brasil, Pátria de Chuteiras
Manés, Garrinchas, nas feiras
Catam lixo, traficam, vendem sal, limão

Quanto garrincha banguelo
Fica na vida sem rumo ou elo
Nunca vai ter um time, um brilho ao sol...
É assim mesmo a nossa história
Nem todos vivem a glória
De serem vencedores com o futebol

Porque há uma outra seleção
Além da glória, do lucro, do campeão
Há a seleção dos excluídos sociais
Manés, Rivelinos, Romários, Garrinchas
Milhões em arrebaldes, pelas frinchas
Sofrendo suas tristices, seus ais

Há uma seleção de coitados
Tantos excluídos, descamisados
Famintos, perdidos, coitadinhos
Nunca terão suas vitórias
Não terão sucesso ou glórias
São outros brasileiros, outros canarinhos

Seleção de Canarinhos sem escola
Sem diploma, sem fama com a bola
Brasileiríssimos...antes, brasileirinhos

Que formam uma outra triste seleção
Mas à margem da história, na exclusão
Poderiam ser outros Pelés, Kakás, Robinhos

-0-

Silas Correa Leite
Torcedor do Clube Atlético Fronteira, Itararé-SP
E-mail: poesilas@terra.com.br
Blogue: www.portas-lapsos.zip.net
Autor de Campo de Trigo Com Corvos, Contos
Editora Design, à venda no site www.livrariacultura.com.br


mritapsil wrote on Apr 13, '09
Que lindo poema... gostei!!!
Um caminho
Escolher uma pessoa é habitá-la...
Seja o caminho você, use e abuse habitando-o...
existencialização
poesilas wrote on Apr 7, '09
Caminhança

Escolher um caminho
É ser o caminho
Ter uma opção
É querê-la
Escolher uma pessoa
É habitá-la
Ter uma visão
É para a realização dela
Escolher um caminho
É ser esse caminho
Caminhá-lo, descobrí-lo, amá-lo
Para a posse
Temos que nos aceitar como somos
Com erros, defeitos, faltas de peças de reposição
Se não amarmos, não seremos felizes
Somos o caminho de nós mesmos
O caminho bifurca, surpreende
Nunca esgota horizontes
Mas é todo seu, todo você
Uma fronteira evocada a cada dia
Seja o seu caminho, você
Use e abuse, habitando-o
Quando vier o fim de seus dias de existencialização
Dirás: eu me refiz, e venci
O primeiro passo é vencer à você mesmo
Caminhar é, sempre, evoluir
Escolha o seu caminho-você
Pra poder perder lastro, ser feliz, voar, evoluir!

-0-

Silas Correa Leite, Itararé-SP
Blogue: www.portas-lapsos.zip.net
E-mail: poesilas@terra.com.br

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